
Por Hugo Marques
O vaqueiro chega sorrateiro. Pula a cerca dos parques nacionais brasileiros e queima a mata nativa. No seu lugar, planta capim e começa a criar gado. Apenas na serra da Bocaina, na divisa entre Rio de Janeiro e São Paulo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) estima que existam 1.500 vacas e bois devastando o que ainda resta de natureza. No Piauí, algumas centenas de bodes cuidam de raspar o que sobrou de parte da vegetação rasteira da serra da Capivara. A lista dos invasores de florestas inclui ainda jumentos e porcos. A invasão atinge principalmente os biomas de uma área de 7% que ainda resta da Mata Atlântica. Mas, antes que muitos parques se transformem definitivamente em fazendas, o Ibama do Rio de Janeiro tomou uma iniciativa inédita, que será adotada em todo o País: a carne dos animais domésticos apreendidos nas reservas naturais vai ser doada para o Fome Zero. A versão ambiental do churrasco para os pobres ganhou o singelo nome de Gado Zero. “Teremos um Natal sem fome”, comemora o superintendente do órgão no Rio, Rogério Rocco. “O gado vai virar alimento para quem precisa de comida.”

Em uma cartilha que o instituto vai imprimir nos próximos dias, constam orientações para recolher gado em reservas naturais. A simples presença do gado nos parques será caracterizada como crime ambiental. As operações do Ibama irão se estender nas próximas semanas para vários Estados. Em Minas Gerais, os criadores de gado não respeitam nem a memória do escritor Guimarães Rosa. Invadiram o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no chapadão entre os rios São Francisco e Tocantins. No mesmo Estado, a serra da Canastra também já é vítima da presença de gado. O perfil do vaqueiro é quase sempre o mesmo: o invasor põe fogo numa parte da mata e espalha semente de braquiária. De origem africana, o capim é rústico, resistente e conquista o espaço das espécies nativas, que perdem em competitividade. Um capim também invasor. Para agravar o problema, os animais domésticos que invadem os parques – os predadores criados pelo homem – não têm os correspondentes predadores naturais nas reservas invadidas.
Levantada a extensão da invasão dos parques, o Ibama identificou outros problemas graves: o que fazer com mais de 800 jumentos que invadiram o parque de Jericoacoara, no litoral cearense? Os animais estão comendo a vegetação fixadora de dunas, que garante o movimento sincronizado das montanhas de areia. “Pode ser um desastre irreversível”, lamenta Rogério Rocco. “Esta presença de animais nas unidades de conservação é extremamente preocupante.” Para os técnicos do Ibama, a invasão de jumentos em parques nacionais do Nordeste é fruto do abandono de animais em larga escala. Com o aumento do número de motocicletas para transporte de pequenas cargas, o jumento foi simplesmente descartado.
O projeto Gado Zero chegou ao Ibama de Brasília há duas semanas para ser analisado e foi imediatamente aprovado pela direção do órgão, por unanimidade.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também aprovou a novidade. O diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Flávio Montiel, diz que o programa tem caráter social forte e vai contribuir para preservar as reservas. “O gado destrói as áreas de preservação permanente”, diz Montiel. “Acaba com as matas ciliares e espalha as sementes de capim nas reservas.” Além da retirada dos animais invasores, os técnicos do Ibama querem amplificar o debate sobre as novas frentes de ocupação do solo em florestas. Pelos cálculos do instituto, o País dispõe de 180 mil hectares de áreas desmatadas que estão abandonadas ou são subutilizadas. Esta área corresponde a 180 mil campos de futebol. O Ibama também não aceita a acusação de ser uma barreira ao desenvolvimento. “Não existe visão dogmática contra grandes projetos”, garante Montiel. “A discussão dever ser técnica, de custo e benefício, e não ideológica.”
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