terça-feira, dezembro 19, 2006

Não me acordem


Luis Fernando Veríssimo

O passado é prólogo. Certos acontecimentos dão força a esta frase, transformam tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo literário, em prefácio. Você se dá conta de que tudo que houve até ali - toda uma vida, toda uma história - foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual nada será como era. E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo tinha um sentido que você apenas não percebera, na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões - tudo era prólogo para ontem.

Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio destaque como melhores do mundo conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão, ontem, foi obra do acaso, esse autor sem imaginação? O resultado de ontem veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional, antes de Pedro Álvares Cabral, antes de Homero e das Pirâmides.

E eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru.

Há dias a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito, e esquecido. Ela teve a gentileza de me mandar o texto, e eu peço licença para repeti-lo agora. Era assim:

"Meu caro colorado. Desculpe esta carta a céu aberto, é que não sei nem seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua, de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos, que vestiam a camiseta do Grêmio (suponho que fossem seu pai e seus irmãos). Você estava com a camiseta do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha! Seu pai vestia uma camisa branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio. E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não agüentaram e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista. Você agüentou. Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Agüente só mais um pouco. Meus respeitos."

Mas isto tudo também pode ser um sonho.

Se for, por favor: não me acordem.

Tensão em Gaza


Após uma semana sangrenta que culminou com o anúncio de trégua entre as duas facções palestinas, Hamas e Fatah, segue o confronto sem que haja uma real possibilidade de saída para o conflito. Tal trégua revelou-se extremamente frágil uma vez que após ser anunciada um adolescente de 16 anos foi gravemente ferido por um tiro na nuca ontem pela manhã, durante tiroteio entre membros dos dois grupos, no centro da cidade de Gaza. A informação é do site International Middle East Center - IMEMC.


Para tentar buscar uma compreensão mais ampla dos acontecimentos na Palestina, bem como promovê-la, iremos iniciar a traduzir, sempre que possível, notícias e artigos do International Middle East Center, que tem feito um excelente trabalho no sentido de publicar, em inglês, relatos e reportagens elaborados por pessoas que residem em Gaza e que, portanto, podem oferecer informações da vida cotidiana, fornecendo uma dimensão mais humana e real da situação.

Ainda, segundo o IMEMC, dois oficiais da Autoridade Nacional Palestina foram mortos e outras cinco pessoas foram feridas em dois confrontos distintos entre membros do Hamas e do Fatah na faixa de Gaza, ao meio-dia de hoje (horário local).

Também com o objetivo de promover um maior esclarecimento sobre a tensão na Palestina, reproduzimos abaixo um texto do site BBCBrasil:


Entenda a crise envolvendo facções palestinas

Os territórios palestinos estão passando alguns de seus momentos mais tensos das últimas décadas, com o crescimento da rivalidade entre membros do Hamas, facção que controla o governo, e o Fatah, do presidente Mahmoud Abbas.

Martin Asser, da BBC, explica as raízes dos confrontos entre membros dos dois grupos.

O que levou ao aumento na tensão?

As facções rivais palestinas, Fatah e Hamas, têm tentado chegar a um acordo quanto a um governo de unidade que iria resolver a crise iniciada pela vitória do Hamas nas eleições de janeiro e um boicote internacional que teve início logo em seguida.

As negociações estão difíceis e, recentemente, chegaram a um aparentemente incontornável impasse. O presidente palestino Mahmoud Abbas tem sugerido novas eleições como forma de resolver o problema.

Por muitos meses, a tensão vem aumentando nos territórios palestinos, que também passam por uma crise econômica, intensificado pelo cerco militar imposto por Israel e pelas sanções – adotadas por causa da recusa do Hamas em reconhecer Israel.

Sem uma solução à vista, dois fatos recentes reforçaram ainda mais a animosidade entre Fatah e Hamas - a morte de três filhos de um chefe de segurança do Fatah e uma aparente tentativa de assassinato contra a vida do premiê Ismail Haniya.

Os dois lados trocam acusações, mas procurar se distanciar de qualquer responsabilidade pelo ataques realizados contra seus oponentes.

Os atuais confrontos entre as facções estão ocorrendo nas ruas das cidades da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e ameçam sair fora de controle.

Qual é a posição dos dois partidos?

O Fatah – facção à que era ligado o líder palestino Yasser Arafat, que morreu em 2004 – apoiou a assinatura dos acordos de Oslo, em 1993, mas o avanço não trouxe paz duradoura à região.

Líderes do Fatah continuam acreditando que acabar com os ataques de palestinos contra Israel é a chave para forçar os israelenses a participarem de negociações de paz, levando a à criação um Estado palestino independente.

O Hamas se recusa a reconhecer a legimitidade de Israel ou a desistir da luta armada para retomar para os palestinos os territórios anexados por Israel em 1948 - terra que eles afirmam que foi perdida quando o Estado de Israel foi estabelecido.

O fracasso do processo de paz e as condições difíceis causadas pela ocupação teriam causado a vitória do Hamas nas eleições parlamentares de 2006.

Muitos eleitores palestinos perdeu a confiança no Fatah, que agora é visto como corrupto e incompetente. Legalistas se ressentem por ter perdido o poder pela primeira vez desde o surgimento do partido na década de 60.

Por que as negociações para a formação de um governo de coalizão palestino, com Fatah e Hamas, são tão difíceis?

As visões de mundo do Fatah e do Hamas são fundamentalmente diferentes.

No coração da filosofia do Fatah (e está é a razão de sua aceitação internacional) está seu reconhecimento do direito de existência do Estado de Israel.

No coração da filosofia do Hamas (e esta é a razão de seu isolamento em relação ao ocidente) está sua recusa em desistir da luta contra Israel, a quem acusa de ignorar os direitos palestinos e cuja legitimidade não reconhece.

Está cada vez mais claro que não há como superar estas diferenças, e isto está associado ao fato de que qualquer compromisso no qual o Hamas assuma uma posição de liderança será provavelmente rejeitado por Israel e seus aliados, como os Estados Unidos.

O que pode acontecer agora?

O Hamas afirma que qualquer tentativa de realizar novas eleições seria um golpe contra um governo eleito nos territórios palestinos.

Ainda é preciso ver se Mahmoud Abbas vai pressionar por uma nova votação - ou se será realmente possível realizar esta nova votação, devido à crescente tensão.

Até o momento, os palestinos sempre foram capazes de se controlar quando a violência interna ameaçou transformar suas vidas em um desastre comparável a uma guerra civil.

Isto ocorre em parte devido a importantes laços familiares e entre clãs, que cruzam as linhas entre as facções na sociedade palestina. Qualquer família pode ter um filho no Hamas, outro no Fatah e um terceiro nas forças de segurança palestinas.

Mas a pressão pode estar aumentando demais, e mesmo esse fato pode não ser suficiente para evitar um conflito em escala maior.

Fontes: International Middle East Center, BBCBrasil.com


segunda-feira, dezembro 18, 2006

Voltando... nóis vai, nóis vorta...

Vermelhou!!!



Minha pequena e sincera homenagem aos colorados, muito especialmente ao João, meu amigo-de-fé-irmão-camarada e companheiro de blog.
Parabéns!!!

Gado zero

Governo cria programa para apreender animais que invadiram parques nacionais e começa a doar a carne aos pobres

Por Hugo Marques

O vaqueiro chega sorrateiro. Pula a cerca dos parques nacionais brasileiros e queima a mata nativa. No seu lugar, planta capim e começa a criar gado. Apenas na serra da Bocaina, na divisa entre Rio de Janeiro e São Paulo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) estima que existam 1.500 vacas e bois devastando o que ainda resta de natureza. No Piauí, algumas centenas de bodes cuidam de raspar o que sobrou de parte da vegetação rasteira da serra da Capivara. A lista dos invasores de florestas inclui ainda jumentos e porcos. A invasão atinge principalmente os biomas de uma área de 7% que ainda resta da Mata Atlântica. Mas, antes que muitos parques se transformem definitivamente em fazendas, o Ibama do Rio de Janeiro tomou uma iniciativa inédita, que será adotada em todo o País: a carne dos animais domésticos apreendidos nas reservas naturais vai ser doada para o Fome Zero. A versão ambiental do churrasco para os pobres ganhou o singelo nome de Gado Zero. “Teremos um Natal sem fome”, comemora o superintendente do órgão no Rio, Rogério Rocco. “O gado vai virar alimento para quem precisa de comida.”

Para marcar o lançamento do Gado Zero, na segunda-feira 18 os técnicos do Ibama no Rio irão doar sete toneladas de carne. Nesta primeira fase da distribuição de alimentos, foi feita uma permuta com as indústrias: vacas em troca de carne moída. O primeiro banquete é resultado da apreensão de 74 cabeças recolhidas na serra da Bocaina, numa operação realizada em janeiro, com a ajuda de órgãos como Exército e Polícia Federal. O gado passou por um período de vacinação e engorda e está no ponto de abate. A maior barreira para deslanchar de vez o programa era a logística. Foi nesta primeira operação que o Ibama desenvolveu procedimentos para apreender e distribuir carne de animais domésticos. Foi criada uma rede de parceiros, que inclui ONGs, donos de fazendas e empresas. As operações para recolher gado em reservas eram tão complicadas que os técnicos da Vigilância Sanitária chegaram a interditar a fazenda de um “parceiro” do Ibama, que emprestou o curral para guardar o gado apreendido.
Em uma cartilha que o instituto vai imprimir nos próximos dias, constam orientações para recolher gado em reservas naturais. A simples presença do gado nos parques será caracterizada como crime ambiental. As operações do Ibama irão se estender nas próximas semanas para vários Estados. Em Minas Gerais, os criadores de gado não respeitam nem a memória do escritor Guimarães Rosa. Invadiram o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no chapadão entre os rios São Francisco e Tocantins. No mesmo Estado, a serra da Canastra também já é vítima da presença de gado. O perfil do vaqueiro é quase sempre o mesmo: o invasor põe fogo numa parte da mata e espalha semente de braquiária. De origem africana, o capim é rústico, resistente e conquista o espaço das espécies nativas, que perdem em competitividade. Um capim também invasor. Para agravar o problema, os animais domésticos que invadem os parques – os predadores criados pelo homem – não têm os correspondentes predadores naturais nas reservas invadidas.

Levantada a extensão da invasão dos parques, o Ibama identificou outros problemas graves: o que fazer com mais de 800 jumentos que invadiram o parque de Jericoacoara, no litoral cearense? Os animais estão comendo a vegetação fixadora de dunas, que garante o movimento sincronizado das montanhas de areia. “Pode ser um desastre irreversível”, lamenta Rogério Rocco. “Esta presença de animais nas unidades de conservação é extremamente preocupante.” Para os técnicos do Ibama, a invasão de jumentos em parques nacionais do Nordeste é fruto do abandono de animais em larga escala. Com o aumento do número de motocicletas para transporte de pequenas cargas, o jumento foi simplesmente descartado.

O projeto Gado Zero chegou ao Ibama de Brasília há duas semanas para ser analisado e foi imediatamente aprovado pela direção do órgão, por unanimidade.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também aprovou a novidade. O diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Flávio Montiel, diz que o programa tem caráter social forte e vai contribuir para preservar as reservas. “O gado destrói as áreas de preservação permanente”, diz Montiel. “Acaba com as matas ciliares e espalha as sementes de capim nas reservas.” Além da retirada dos animais invasores, os técnicos do Ibama querem amplificar o debate sobre as novas frentes de ocupação do solo em florestas. Pelos cálculos do instituto, o País dispõe de 180 mil hectares de áreas desmatadas que estão abandonadas ou são subutilizadas. Esta área corresponde a 180 mil campos de futebol. O Ibama também não aceita a acusação de ser uma barreira ao desenvolvimento. “Não existe visão dogmática contra grandes projetos”, garante Montiel. “A discussão dever ser técnica, de custo e benefício, e não ideológica.”

Contra o aumento imoral de 90,7%

Petição eletrônica contra o aumento imoral dos salários dos deputados federais

http://www.petitiononline.com/oeleitor/petition.html

Faz a tua parte!!!!!!

terça-feira, dezembro 12, 2006

Enquanto isso, na Gringolândia...


















Cartoon de Daryl Cagle - Politicalcartoons.com

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Proyecto censurado

IV. Las 25 historias top más ocultadas en EEUU en el 2006
Aumentan el hambre y el desamparo en EEUU
por Abid Aslam*, Brendan Coyne*

Foto cortesía de Dylan Tauber.En EEUU aumentan la pobreza el hambre y el desamparo de los ciudadanos pobres «sin casa» que recurren a los programas de asistencia social federales, estadales y municipales, según estudios realizados por agencias gubernamentales en 24 ciudades del país, pero el gobierno de George Bush desea terminar con esa realidad espinuda… eliminando los estudios que miden científicamente las necesidades de los más excluidos en la sociedad estadounidense.

7 de diciembre de 2006

Los homeless «sin casa» están por todos lados en las calles de Estados Unidos.

Ver los otros artículos del Proyecto censurado.

Los estadounidenses con hambre y sin casa ni hogar continuaron aumentando en 2005 en las ciudades de EEUU, a pesar de las anunciadas mejoras en la economía. Sigue en aumento la demanda de servicios vitales para las necesidades de los más desamparados, según el informe anual de la Conferencia de Alcaldes, que viene documentando necesidades crecientes desde 1982.

El estudio registra casos de alimentación de emergencia y de ayuda en alojamiento en 24 ciudades del país utilizando información suplementaria del censo estadounidense y datos del ministerio del Trabajo. En más del 75 por ciento de las ciudades inspeccionadas se reportaron aumentos en la demanda de ayuda en comida y alojamiento, sobre todo entre las familias. Las demandas de ayuda por comida crecieron 12% en 2005, mientras la ayuda de centros y bancos de alimentos creció en sólo 7%. Los proveedores de servicios estimaron que el 18% de las demandas fueron desatendidas. La necesidad de alojamiento siguió una tendencia similar, pues la mayoría de las ciudades informó de aumentos en la demanda para el amparo de emergencia, a menudo insatisfecha debido a la falta de recursos.

Mientras aumentan en EEUU el hambre urbana y la gente sin hogar ni vivienda, la administración Bush está planeando eliminar los estudios nacionales que miden la realidad social y, al mismo tiempo, son ampliamente utilizados para mejorar los programas federales y estatales en favor de los ciudadanos de bajos ingresos y jubilados, informó en marzo de este año el periodista Abid Aslam, escribiendo para OneWorld.net.

«Matar al mensajero»
El presupuesto propuesto por el presidente Bush para el año fiscal 2007 que empieza en octubre del 2006 incluye un plan del Departamento de Comercio para eliminar la Oficina del Censo del Estudio sobre Ingreso y Programa de Participación (Survey of Income and Program Participation, SIPP). La propuesta marca por lo menos la tercera tentativa de la Casa Blanca en otros tantos años por eliminar la recolección de datos federal en los problemas económicos políticamente espinudos. Establecidos en 1984, los estudios de la Oficina del Censo siguen a las familias estadounidenses por varios años y monitorea el uso que hacen de la Ayuda Temporal para las Familias Necesitadas (TANF, en inglés), del seguro social, medicación, salud, seguro de desempleo, cuidado del niño, servicio social y programas de educación.

Unos 415 economistas y científicos sociales firmaron una carta dirigida al Congreso, después que en febrero 2006 se conoció la propuesta del presupuesto federal de Bush, instando a que “el estudio sea consolidado totalmente por tratarse explícitamente del único estudio de gran potencia diseñado para analizar el impacto de una amplia variedad de programas gubernamentales para el bienestar de las familias americanas”.

Heather Boushey, economista de Washington, D.C., del Centro para la Investigación Económica y Política (CEPR, en inglés), le dijo a Abid Aslam: “Nosotros necesitamos saber qué efectos tienen estos programas en las familias americanas. . . El SIPP se diseñó simplemente para esos eso”. Boushey agregó que el estudio se ha demostrado inestimable para rastrear los efectos de los cambios en los programas del gobierno. Tanto como para que en 1996 la ley de reforma de bienestar mencionara específicamente al estudio como el medios más idóneo para evaluar la efectividad de la ley.

Los partidarios de la eliminación del estudio dicen que los costos del programa requieren demasiado: 40 millones de dólares por año. Lo matarían en septiembre y en el futuro lo reemplazarían con un descascarada versión que insumiría 9,2 millones en los costos de desarrollo durante el próximo año fiscal. La recolección real de los datos empezaría en 2009.

Los defensores del estudio alegan que el costo está justificado porque el SIPP “proporciona un arroyo constante de datos en profundidad que le permiten al gobierno, a académicos y a los investigadores independientes evaluar la efectividad y mejorar la eficacia de varios cientos de miles de millones de dólares gastados en los programas sociales,” incluso los resguardos de los sin hogar y la ayuda de comida de emergencia.

Actualización de Abid Aslam
A partir de fines de mayo de 2006, centenares de economistas y de científicos sociales se comprometieron en una campaña por salvar al US Census Bureau’s Survey of Income and Program Participation (SIPP). Ideológicamente, diversos usuarios describen al estudio como un camino abierto y aseguran que ayuda a mejorar la captación de datos para calibrar los efectos en las familias norteamericanas de los cambios en los programas de provisión pública que van desde Medicina a Ayuda Temporal a las Familias Necesitadas y programas de almuerzo en las escuelas.

Muy pocos periodistas se interesaron en la noticia, aunque los usuarios de los datos, incluido el Centro para la Investigación Económica y Política (CEPR), con sede en Washington, cuyos directivos optaron por hacer algo de ruido. Pero al fin de cuentas, el tema aparece como una simple lucha sobre dinero: la administración esta empecinada en cortar casi todos los presupuestos burocráticos (quizás para financiar mejor sus persecuciones políticas en el extranjero) en tanto los usuarios del estudio quisieran que el dinero se gastara en el SIPP porque, según su punto de vista, el programa es valioso y no existe ni se ha propuesto ninguna alternativa factible.

Ese debate aún no está resuelto. Los cabilderos esperaban más acción legislativa en junio y entre ellos, algunos del CEPR están dispuestos a hacer lobby proporcionando nuevos antecedentes. Sin embargo, ¿es sólo una lucha aislada del presupuesto? Este es el tercer intento por eliminar esos fondos de investigación en todos los años que lleva la administración Bush -y en los dos casos anteriores, fueron mantenidos por la presión de los usuarios y abogados.

En 2003, el gobierno intentó matar los informes de Estadísticas de Despidos en Masa del Escritorio de Estadísticas Obreras (Bureau of Labor Statistics BLS), que detallan cuáles son los lugares de trabajo con más de 50 trabajadores que han sido cerrados y qué tipo de obreros son los afectados. En 2004 y 2005 intentaron eliminar las preguntas a los empleadores sobre contratos y despidos de mujeres en los datos sobre empleo que recoge el BLS. Encontrándose entre los artículos más pesados del presupuesto federal, los informes sobre despidos en masa proporcionan datos cruciales para su planificación a las agencias de servicios sociales federales y estadales, así como a quienes escriben crónicas sobre las pérdidas de puestos de trabajo y la llamada “recuperación sin empleo”. El cuestionario sobre las mujeres destapó la discriminación en el empleo.

En otras palabras, los programas SIPP y los trabajos del BLS son políticamente espinosos. Ellos resaltan, sin tener en cuenta lo que algunos políticos y ejecutivos podrían decir, que los problemas económicos y sociales persisten e involucran a las personas reales, cuyas necesidades verdaderas continúan sin solucionarse. Esto evoca el viejo aserto de que existen varios tipos de mentiras, entre ellos las mentiras estadísticas. Si el gobierno cree estar convenciendo, debe ser ampliamente consistente y si los números no apoyan la narrativa, simplemente algo falta por darse. Con el sustento, la oportunidad de vida y los derechos de millones de ciudadanos en la estacada, ésta es una historia más sobre los misterios ocultos en las disputas sobre el presupuesto.

Abid Aslam
Abid Aslam es un periodista estadounidense especializado en política internacional que también escarba en informes oficiales que ponen de relieve la pobreza y cómo se ahondan las crecientes diferencias entre pobres y ricos en EEUU. Además de OneWorld.net escribe en otros medios alternativos y críticos, como AlterNet.org, CommonDreams, Hartford-Hwp.com, AntiWar.com, CounterCurrents.org y TwnSide.org.

Brendan Coyne
Brendan Coyne es un periodista independiente (free lance), colaborador permanente del diario The NewStandard, con sede en Syracuse, Nueva York, donde escribe la columna semanal ’Work Digest’ (Compendio del Trabajo) y regularmente produce informes sobre cuestiones laborales, económicos, libertades obreras y civiles, política internacional y otros temas. Reside en Baltimore, Maryland, se describe a sí mismo como “un adicto a la política y a los medios de comunicación” y, además, trabaja como asistente editorial en The Johns Hopkins University Press. Sus trabajos se reproducen en numerosos medios, entre otros CityPaper.com, DrumMajorInstitute.org y OmbWatch.org.

http://www.voltairenet.org/article144317.html

domingo, dezembro 10, 2006

Já não chove sobre Santiago

O golpe de Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973 depôs e assassinou o presidente socialista Salvador Allende. Calcula-se que de 10 a 30 mil pessoas foram assassinadas ou tornaram-se desaparecidos políticos durante o regime - famoso pela prática da tortura e execução sistemática daqueles que se opunham a ele. A ditadura de Pinochet, que durou 16 anos, teve apoio dos Estados Unidos - como ficou comprovado em 1999 com a abertura dos arquivos da CIA sobre o golpe de 1973.

Augusto Pinochet morreu hoje, no Hospital Militar de Santiago, sem ter sido julgado pelos inúmeros crimes que cometeu.

Nossa pequena homenagem às vítimas e famílias das vítimas da ditadura sangrenta no Chile: segue abaixo a reprodução integral do último discurso de Salvador Allende, feito pela Radio Magallanes, às 9h10min, do Palácio de La Moneda, já sob bombardeio da Força Aérea, na operação denominada Chove sobre Santiago.


Última alocución de Salvador Allende en "Radio Magallanes"

Seguramente esta es la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Portales y Radio Corporación.

Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron... soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino que se ha auto designado, más el señor Mendoza, general rastrero... que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al gobierno, también se ha nominado director general de Carabineros.

Ante estos hechos, sólo me cabe decirle a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que entregáramos a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente.

Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen... ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Trabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección. El capital foráneo, el imperialismo, unido a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara Schneider y que reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas, esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros; a la obrera que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas, a los que hace días estuvieron trabajando contra la sedición auspiciada por los Colegios profesionales, colegios de clase para defender también las ventajas que una sociedad capitalista da a unos pocos. Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron, entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos... porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando la línea férrea, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de los que tenían la obligación de proceder: estaban comprometidos. La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz no llegará a ustedes. No importa, lo seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos, mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal a la lealtad de los trabajadores.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria: Tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición, pretende imponerse. Sigan ustedes, sabiendo, que mucho más temprano que tarde, de nuevo, abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza, de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.

Salvador Allende, Santiago de Chile, 11 septiembre de 1973.
www.salvador-allende.cl

sexta-feira, dezembro 08, 2006

As grandes alamedas

O texto reproduzido abaixo é uma belíssima análise sobre este momento político na América Latina, bem como o processo que o originou, escrita por José Luís Fiori, cientista político e professor da UFRJ, publicada hoje pela Carta Maior. E me fez lembrar das palavras de Tariq Ali, em uma das entrevistas que concedeu quando esteve no Brasil em agosto deste ano para a Festa Literária de Parati - acho que foi na do Roda Viva - onde, ao comentar o fato da democracia estar sendo minada pela aliança entre poder e dinheiro, foi questionado se ele via no mundo alguma esperança, no sentido de efetivamente construir-se uma alternativa ao neoliberalismo e ao chamado Consenso de Washington, e lascou sem qualquer hesitação: "Sim, na América Latina". Pois entonces, tá tudo aí:


“Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir uma sociedad mejor”
Salvador Allende, Último Discurso, 11 de setembro de 1973


O filósofo francês Michel Foucault começa seu livro sobre “As Palavras e as Coisas” citando uma “classificação de animais” de uma enciclopédia chinesa descoberta por Borges, e que parece, à primeira vista, muito divertida. Para os chineses, os animais se dividiriam em “a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, c) sereias, d) fabulosos e) cães em liberdade, f) que se agitam como loucos, g) inumeráveis, h) que acabam de quebrar a bilha, i) que de longe parecem moscas, j) et cetera, l) incluídos na presente classificação, m) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo”. Na verdade, um exercício lógico de construção de um conceito e de uma identidade, num determinado momento milenar do conhecimento biológico chinês.

O estranho, quase divertido, é perceber a semelhança que existe entre esta lista milenar de animais e as classificações recentes da esquerda latino-americana feitas pelos conservadores. Durante a Guerra Fria, a esquerda foi considerada uma força política coesa, e uma ameaça homogênea. Mas agora, segundo os conservadores, as suas divisões e classificações internas são tantas e tão confusas que lembram a classificação dos animais chineses.

No início, só se distinguiam os “normais” e “equilibrados” dos nacionalistas e populistas, mas agora o quadro se complicou, e já se fala normalmente de esquerdistas “a) moderados, b) radicais, c) do bem, d) do mal, e) demagógicos, f) refundacionistas, g) etno-sociais, h) modernos, i) espalhafatosos, g) anacrônicos, h) autoritários, i) pós-modernos, f) nacional-populares, g) pragmáticos, h) nacional-desenvolvimentistas, i) raivosos, j) narcísicos, l) estriônicos, m) pré-históricos, e até m) nazi-fascistas”. No caso da Enciclopédia Chinesa, a confusão pode ser atribuída à Biologia da época. Mas no caso da esquerda latino-americana, e da sua vitória eleitoral, neste ano de 2006, não é provável que a culpa seja apenas da Ciência Política.

É perfeitamente compreensível que alguns não gostem do que está acontecendo. Mas qualquer observador mais atento e objetivo percebe que está em curso uma mudança importante na América Latina, uma mudança com relação à história da própria esquerda e de todos os sistemas políticos do Continente. Basta lembrar que neste início de século XXI, todas as vitórias da esquerda foram democráticas e massivas, por maiorias contundentes e com o apoio ativo de populações que estiveram até hoje isoladas e “recluídas”, nas montanhas indígenas, no submundo urbano, e nos grotões do atraso e da dominação coronelista.

Tudo isto, depois de 20 anos de ditaduras militares de direita, em quase todo Continente, e mais 10 anos de governos neoliberais. Frente a isto, o que se destaca como denominador comum desta nova onda de esquerda, na América Latina, é sem dúvida nenhuma a vontade massiva de mudar, a vontade de não voltar mais para trás, mesmo quando ainda não estejam claras as idéias e os caminhos imediatos do futuro. A esquerda latino-americana governou muito pouco, durante o século XX, e na hora da sua vitória, no início do século XXI, os socialistas e a social-democracia européia estão vivendo uma profunda crise de identidade.

Por isso, o que surpreende neste momento não é a imprecisão das idéias e dos projetos imediatos dos governos eleitos, mas a sua unidade em torno de um grande objetivo central: mudar definitivamente o rumo elitista, racista e subalterno da história latino-americana. Esta novidade histórica exige um renovado esforço teórico, porque já não cabe nos conceitos clássicos da sociologia latino-americana, que se transformaram em jargões, como no caso, por exemplo, do “populismo”, que quer dizer tudo e não significa mais nada.

Em 1944, o historiador e economista austríaco Karl Polanyi publicou nos Estados Unidos uma obra clássica sobre a formação e expansão da “civilização liberal” no século XIX, e sobre as suas crises e guerras no século XX (1) . Segundo Polanyi, as economias e sociedades liberais são movidas por duas forças simultâneas e contraditórias, materiais e sociais. A primeira seria de natureza “liberal-internacionalizante”, que empurraria as economias nacionais na direção da globalização e da universalização dos mercados “auto-regulados”. E a segunda atuaria numa direção oposta, de “auto-proteção social e nacional”, funcionando como uma reação defensiva das sociedades ao efeito destrutivo dos mercados auto-regulados, que ele chamou de “moinhos satânicos”.

No caso dos países europeus, sobretudo no século XX, estes dois movimentos de auto-proteção – nacional e social – convergiram sob a pressão externa das duas Grandes Guerras Mundiais, da crise econômica da década de 1930 e, depois, da própria Guerra Fria. Polanyi considera que foi esta convergência que viabilizou, depois de 1945, o sucesso das políticas de crescimento econômico, pleno emprego e bem-estar social, consideradas heréticas durante a “era de ouro” da “civilização liberal”, entre 1840 e 1914. Mas fora da Europa e dos Estados Unidos, em particular na América Latina, este “duplo movimento” nunca se deu de forma convergente, pelo menos até o final do século XX.

Karl Polanyi não previu a possibilidade de uma “restauração liberal-conservadora” dos mercados auto-regulados, como a que ocorreu depois de 1980. Entretanto, no início do século XXI, multiplicam-se por todo lado os sinais de uma nova reversão ou “grande transformação” – nacional e social – provocada pelas desregulações massivas dos mercados, nas últimas décadas do século XX, e pelo seu impacto destrutivo sobre o mundo do trabalho e sobre a distribuição da riqueza entre as classes e as nações.

A grande novidade, entretanto, é que desta vez, a reação social e nacional está começando pela América Latina, quem sabe graças à “globalização”. E ainda mais, desta vez, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, a convergência das duas forças de que fala Polanyi não está sendo provocado por uma guerra, e o movimento de “auto-proteção” está vindo do social para o nacional, de “baixo” para “cima”. Na forma de um gigantesco movimento democrático, a favor de mais justiça na distribuição nacional e internacional dos direitos, do poder e da riqueza.


* Artigo em homenagem a Eduardo Kugelmas, grande amigo e companheiro de Santiago do Chile, professor da Universidade de São Paulo, falecido no dia 14 de novembro de 2006.

(1) Polanyi, K. (1944/1972), A Grande Transformação, Editora Campus, Rio de Janeiro


*José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Agência Carta Maior

A Prenda Paulista e a Entrevista

de Zé Valdir *

O Rio Grande resolveu
Mudar a história nativista
Por uma atitude ousada,
Moderna e não bairrista
O gaúcho do nosso Estado
Será agora governado
Por uma prenda paulista.

Senhora de muitas letras
Nas academias de além-mares
Dizendo encarnar o "novo"
Modernos projetos e olhares
Foi demonstrar sua competência
Sobre as coisas da Querência
No programa do Jô Soares.

Com estardalhaço e expectativa
Anunciou-se a apresentação
Pessoas e até divindades
Tomaram-se de empolgação
Até São Pedro nesse dia
Ao lado do Teixeirinha
Assistiu televisão.

Jô Soares muito esperto
Foi se fazendo de bacana
E na conversa foi levando
A professora tucana
Sobre os usos da querência
Foi testando a sapiência
Da estudada paulistana.

E a paisana foi se soltando
Com grande desenvoltura
Com ares de sabe-tudo
Da nossa história e cultura
Ate São Pedro padroeiro
E Teixeirinha seu parceiro
Sorriam lá das alturas.

Logo à primeira pergunta
A mestra se atrapalha
Comprometendo o seu saber
Qual fogo em paiol de palha
Como bugalho e pimenta
Confundiu abajur e vestimenta
Ao definir a pantalha.

A sábia prenda paulistana
Sobre o Teixeirinha esclarecia
A homenageá-lo em Passo Fundo
Muitas estátuas havia
Pra quem conhece cidade
Sabe que não é verdade:
Só há uma e não deu cria.

Veio a gafe mais cruel
Da sábia prenda "atucanada"
Chamou "churrasco de mãe"
Sua música mais consagrada
- Um deboche paulistano
Sem graça e sem tutano
Pra gozar com a gauchada.

Teixeirinha lá no céu
Decerto que não gostou
Quando a viu cantarolar
Palavras que não criou
Mas neste pago adorado
Seu filho por ser educado
A paulistana perdoou.

A prenda paulista ensinava
Com grande convicção
Caprichando nos detalhes
Pra mostrar erudição
Que aqui, no Sul, é o pãozinho
Conhecido por cacetinho
Por cacete e cacetão.

'Tudo depende do gosto
E da precisão do vivente
Detalhava a prenda paulista
À vontade e eloqüente
E São Pedro, que é recatado,
Constrangido e contrariado,
De vergonha se fez silente.

Jô Soares insaciável
Ainda não estava contente
Indagou da prenda paulista
Seus planos daqui pra frente
Ela revelou confiante
Que sua meta mais distante
É se tornar presidente.

São Pedro chamou o Brizola
Gaúcho viajado e probo
Que foi opinando firme:
'"Ninguém me tira pra bobo"...
Apontou pro Roberto Marinho:
"Tem cascavel nesse ninho.
É coisa da Rede Globo!".

(O fato: entrevista da Governadora eleita, Yeda Crucius ao programa do Jô Soares, dia 7/11/06. Ver reportagem ZH-8/11/06, pág. 5)
(*) Zé Valdir é professor, militante social, acadêmico de direito e poeta popular, em Porto Alegre.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

'Estagnação' sentida pelos ricos é sinal da queda na desigualdade

Se para os pobres do Brasil o aumento de renda per capita tem sido semelhante à média da China, os ricos experimentaram um crescimento do nível da Costa do Marfim. Redução da desigualdade é isso mesmo, explica especialista do Ipea.

Esqueça a "Belíndia" inventada em meados dos anos 70 pelo economista Edmar Bacha, que depois veio a ser um dos idealizadores do Plano Real. Durante muito tempo, a fusão das condições de vida da Bélgica e da Índia era citada como símbolo do nível da desigualdade no Brasil. Passados mais de 30 anos, a expressão pode estar, desde que seja mantido o ritmo de redução das disparidades de renda nos últimos anos, com os dias contados.

De acordo com Ricardo Paes de Barros, um dos mais consultados especialistas em política social do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), as referências atuais são outras. Se para a parcela mais pobre da população brasileira o aumento de renda per capita tem sido semelhante à média dos ganhos dos festejados chineses, os ricos do território nacional experimentaram um crescimento do nível da nação africana de Costa do Marfim. Isso explica a sensação de que "o País ficou parado", tão comum nos colóquios entre os abonados brasileiros.

"Para que as desigualdades sejam reduzidas, o crescimento dos ricos tem que ser menor. Daí a sensação deles de que o País está estagnado", explicou Paes de Barros, durante o seminário "O Desafio da Redução da Desigualdade e da Pobreza", em debate realizada na última quinta-feira (30). Outros dados comparativos apresentados pelo especialista – resultado de uma publicação de mais de 900 páginas, resultado da colaboração de 42 pesquisadores - ajudam a entender melhor a distribuição desse fenômeno.
O incremento da renda per capita tem atingido a média de 1% ao ano para o conjunto da população brasileira. Para a metade mais pobre do País, esse crescimento foi de 3,7% ao ano. Para os 20% mais pobres, 6%; e de impressionantes 8% ao ano para o segmento dos 10% mais pobres.

O principal desafio está na sustentação da continuidade dessa queda de desigualdade. O Brasil está no grupo de 23% dos países onde a queda da desigualdade foi mais acentuada no período mais recente. Na média, os brasileiros têm uma renda situada ba faixa dos dois terços/um terço: ou seja, dois terços dos países do mundo têm renda média abaixo do Brasil e um terço tem renda média acima do Brasil. Se pegarmos apenas a renda dos mais pobres, o Brasil cai para o segmento dos 25% mais pobres do mundo. E se pegarmos os ricos, o país sobe para o seleto grupo dos 30% mais ricos.

As estatísticas revelam que os sinais captados pelo Ipea ainda não passam do primeiro passo de uma gigantesca jornada. Para alcançar o nível médio de desigualdade do conjunto dos países em desenvolvimento, será necessário que o País siga no mesmo ritmo de redução da desigualdade desde 2001, quando o índice de Gini (que mede a concentração) começou a cair, ao longo dos próximos 25 anos.

Na visão de Paes de Barros, o caminho para manter essa trajetória, pelo menos na parte econômica, já está traçado. A palavra de ordem é integrar. Ele ressalta que o canal de relacionamento entre o Estado e a parte mais pobre da população já foi criado e consolidado com o cadastro único e que agora é preciso agregar outras políticas públicas dentro dessa via de acesso.
"O Bolsa Família veio para ficar. Transitória é a permanência da família no programa", sustenta. A integração das políticas sociais, condiciona o expert do Ipea, não pode ser apenas um "pacotão" padronizado para todos e deve levar em conta as especificidades de cada família.

As questões de foco e prioridade também mereceram comentários de Paes de Barros. "Aumento do salário do funcionalismo não combate pobreza", sublinhou. "Não se trata de fazer de tudo um pouco, mas de escolher aquilo que mais funciona e concentrar os esforços para manter a redução da desigualdade", completou.


E essa priorização dos gastos públicos destinados aos mais pobres levanta uma questão política central:
qual é a capacidade das famílias brancas e ricas de suportar a estagnação vendo os pobres ganhando mais? Para que a desigualdade continue diminuindo, a renda dos ricos necessariamente não pode deixar de crescer mais lentamente.

Fatores determinantes
Uma combinação de fatores explica o grau da redução da desigualdade dos últimos anos. A influência da melhoria de renda não derivada de trabalho mostra que as políticas sociais tiveram um papel fundamental para essa queda. Pensões e aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC), que consiste na transferência de um salário mínimo a idosos e pessoas com necessidades especiais que não têm outras fontes de renda, contribuíram respectivamente, de acordo com os dados do livro compilado por Paes de Barros, com 26%, 12% e 11% para a redução da desigualdade. A soma dessas iniciativas foi responsável por metade (49%) da redução.

A diminuição da diferença de remuneração do trabalho por faixa de escolaridade, uma das conseqüências do progresso educacional da população brasileira, também contribuiu com 19% para a redução da desigualdade. Houve uma queda do impacto que um ano a mais da educação tem sobre os salários. O especialista do Ipea explicou que uma diferença menor permite maior acesso aos pobres, como baixar o preço do computador ou do ingresso do cinema para melhorar a formação dos mais pobres. "Ainda se atribui artificialmente muito preço no trabalho para a educação", declarou, lembrando ainda que
o mercado de trabalho continua tratando pessoas com o mesmo potencial produtivo de maneira diferente, como se pode verificar em pesquisas de recorte racial.

Os movimentos de desconcentraçã
o do mercado de trabalho das grandes metrópoles para cidades médias e menores do interior e das áreas urbanas para a zona rural também corroboraram, juntos, com 17% para a redução da desigualdade. "A melhora dos pobres de fora das áreas metropolitanas foi maior", comentou Paes de Barros.

Base de dados
O pesquisador do Ipea aproveitou o evento para responder ao questionamento de que a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e utilizada como base nas pesquisas que vem detectando a queda da desigualdade no Brasil, não registra os rendimentos fora de trabalho (especialmente a renda de aplicações financeiras) e que, portanto, o ritmo da redução não teria sido dessa magnitude.

A renda total aferida pela PNAD é de R$ 850 bilhões por ano, enquanto o total de renda contabilizado por outro levantamento - a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) é de R$ 1 trilhão no ano. O pesquisador do Ipea garante que a POF, mesmo sendo mais abrangente, apresenta os mesmos níveis de redução da desigualdade. Ausente da PNAD, o lucro das empresas de cerca de R$ 250 bilhões consome R$ 150 bilhões de custos de manutenção por ano. Ou seja, segundo ele, os R$ 100 bilhões restantes que ficam retidos desses lucros no Brasil e fora dele não foram suficientes para desequilibrar o peso dos gastos governamentais no sentido distributivo. Também a transferência de bens que não envolvem trocas financeiras (doações de roupas e artigos domésticos, por exemplo) e somam cerca de R$ 24 bilhões por ano e a produção para auto-consumo que chega a R$ 20 bilhões por ano não aparecem na PNAD. Diante disso, Paes de Barros chegou a seguinte conclusão:
"O Brasil talvez esteja ainda menos desigual [do que as pesquisas com base na PNAD estão mostrando]".

Maurício Hashizume - Carta Maior

terça-feira, dezembro 05, 2006

Enquanto isso, em Eucaliptópolis...

Aderindo à campanha do Animot, diante da possibilidade da extinção da Secretaria de Cultura no Estado do Rio Grande do Sul - segundo proposta que vem sendo defendida nas secretíssimas reuniões do gabinete de transição da governadora eleita do RS.

Ao que parece, no "novo jeito de governar", cultura é só
pra inglês ver.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Vitória Popular

Hugo Chávez é reeleito na República Bolivariana de Venezuela

O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela acaba de divulgar os números oficiais que confirmam o Presidente Hugo Rafael Chávez Frias, de 51 anos, reeleito na Venezuela.

Com 78,31% das urnas apuradas, Chávez tem
61,3% (5.936.141 votos), enquanto Manuel Rosales tem 38,4%(3.715.292 votos).

Logo após a divulgação oficial, Chávez apareceu Balcón del Pueblo do Miraflores e cantou, junto com seu povo, o Hino Venezuelano, dando vivas à revolução democrática socialista na Venezuela e na América Latina.

Neste momento, Chávez, sob forte tempestado, faz discurso emocionado ao povo venezuelano que a todo momento grita o seu já tradicional "Chávez, no se va". A TeleSur transmitindo tudo ao vivo.

domingo, dezembro 03, 2006

Tudo está no seu lugar...

Venezuela continuará toda roja, rojita!

Com base em números extra-oficiais, a TeleSur já anuncia a reeleição do Presidente Hugo Chávez por mais 6 anos. Ao que tudo indica, a diferença entre ele e Rosales não deve ficar longe dos 20% previstos hoje em várias pesquisas.

Apesar da garoa fina, milhares de pessoas tomam a Avenida Urdaneta neste momento, em frente ao Palácio Miraflores, onde aguardam o resultado oficial e já iniciam a comemoração da continuidade da revolução bolivariana na Venezuela.

Fontes: Terra e Telesur

Meio ambiente não é o vilão do crescimento

Se o desenvolvimento do país não for "sustentável", o Brasil andará na contramão da história, argumenta a ministra

APÓS TRÊS anos e 11 meses à frente do Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva viu, nos últimos dias, a questão ambiental ser alçada ao topo das prioridades nacionais -só que listada como entrave, não como aliada, e pelo próprio Presidente da República. Assumidamente desconfortável com a inclusão do licenciamento ambiental na lista das barreiras ao crescimento econômico, ela insiste que "crescimento" precisa ser acompanhado de um adjetivo: "sustentável".

Lula Marques/Folha Imagem

Marina Silva dá entrevista em seu gabinete, no Ministério do Meio Ambiente

MARTA SALOMON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

"Se não for sustentável, não é desenvolvimento, é a repetição das catástrofes que nós estamos vendo e combatendo". Segundo a ministra, problemas com licenças ambientais são limitados a poucos empreendimentos, como a usina hidrelétrica de Belo Monte e transposição do rio São Francisco, ambos paralisados pela Justiça. Os problemas, diz, devem ser procurados em outros setores -sem apontar quais.
Quando Marina voltou de uma conferência sobre clima no Quênia, na semana passada, o governo já havia deflagrado debate sobre a necessidade de mudanças na legislação ambiental. O debate, revela a ministra, inclui uma nova regra para a chamada compensação ambiental, mecanismo pelo qual empreendimentos destinam percentual proporcional ao dano que causaram a unidades de conservação .
No cargo desde o primeiro dia de mandato de Lula, Marina não sabe se ficará no cargo após o final do ano. Ela ainda não conversou com o presidente sobre o tratamento da questão ambiental como vilão no mais recente debate do desenvolvimento. Mas não nega as pressões: "Todo dia, a gente pega uma cobra pelo rabo e um boi pelo chifre".

FOLHA - O presidente Lula pôs a questão ambiental na lista de entraves ao crescimento. Os ambientalistas reagiram, seu secretário-executivo, Cláudio Langone, falou que o setor não seria "bode expiatório". De que lado a sra fica?
MARINA SILVA - O Langone usou uma força de expressão. Existe um conjunto de fatores que precisam ser tratados em relação ao crescimento econômico. O setor ambiental não pode, no meu entendimento, ser tratado nem como o que dificulta nem como o que a priori facilita.

FOLHA - Há pressão para que o Meio Ambiente relaxe na concessão de licenças ambientais?
MARINA - Ninguém pode propor a um gestor público que relaxe o cumprimento da lei. O presidente Lula está tratando do conjunto dos problemas. Quando chegamos aqui, o setor de licenciamento tinha sete pessoas do quadro efetivo. Por decisão do presidente, aumentamos em 30% o efetivo do ministério e do Ibama. O Ibama vai poder chamar mais 300 concursados. No caso do setor ambiental, a eficiência do órgão de licenciamento expõe também alguns problemas dos empreendedores.

FOLHA - Qual é a avaliação que a sra. faz hoje da eficiência do licenciamento ambiental?
MARINA - Nos últimos oito anos [governo FHC], a média de licenciamento no Ibama era de 145 licenças por ano. Atualmente é de 225 licenças. Quando chegamos aqui, tínhamos 45 empreendimentos parados por decisão judicial. E é engraçado que não havia um levante neste país em decorrência disso.

FOLHA - A que a sra. atribui então o tal "levante"?
MARINA - Eu acho que é o conjunto das coisas. Imagino que há vários outros problemas, em relação a vários outros setores.

FOLHA - Por exemplo?
MARINA - Num país como o Brasil, que nos últimos dez anos tem tido dificuldades de crescimento, não se pode reduzir a um ou outro aspecto o problema do crescimento. O meu ministério faz parte do processo, mas está muito longe de estar na estrutura do problema.

FOLHA - A sra. elogia a legislação ambiental, mas mudanças foram discutidas com o presidente em 17 de novembro, pelo menos o envio ao Congresso da regulamentação do artigo 23 da Constituição. Muda substancialmente o processo?
MARINA - Isso foi uma discussão que fizemos com o Parlamento, com o Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente], com os Estados, com as prefeituras e com a sociedade civil. O acordo estava fechado 100% e em fevereiro foi encaminhado à Casa Civil. É a questão das competências do licenciamento. Existem alguns empreendimentos que são de competência dos Estados e outros que são da União. Com a regulamentação, vamos evitar esse tipo de questionamento. Aliás, um dos grandes problemas do licenciamento são estudos precários. Nós já tivemos casos em que as pessoas colaram fotografias da internet de uma cachoeira na Venezuela, de algum lugar aí.

FOLHA - Há algum setor do governo com menos sensibilidade para a questão ambiental?
MARINA - Não é uma questão de sensibilidade, é uma questão de objetividade. Um país que tem 165.000 km2 de área desflorestada abandonada ou semi-abandonada pode dobrar a sua produção de grãos sem precisar derrubar mais um pé de mato. Por que não lançar mão da tecnologia existente na Embrapa pra fazer isso no lugar de fazermos uma coisa superatrasada que é derrubar floresta e destruir biodiversidade?

FOLHA - Alguém defende isso no governo?
MARINA - Não sei se tem dentro do governo. Acho que, infelizmente, essas idéias ainda estão na sociedade. Pelo menos pela minha experiência, nestes 3 anos e 11 meses que estou aqui, temos trabalhado a partir dessa visão: meio ambiente não é uma camada de dificuldade ao desenvolvimento, é a única forma de fazer um desenvolvimento com condições de ser duradouro, virtuoso.

FOLHA - Esse modelo esteve algum momento em risco nesse debate?
MARINA - Olha, eu sempre brinco com minha equipe que todo dia a gente pega uma cobra pelo rabo e um boi pelo chifre.

FOLHA - A sra. sente desconforto?
MARINA - Se eu fizer um retrospecto, não vou encontrar momento confortável. Durante esses anos todos desde que me tornei ambientalista, aos 17 anos, tem sido desconfortável. No debate deste momento, é importante que fique claro que licenças foram dadas e obras licenciadas não foram iniciadas.

FOLHA - Qual é a possibilidade de permanência no comando do Meio Ambiente no segundo mandato?
MARINA - O presidente está fazendo conversas com partidos da base aliada. Eu e a minha equipe trabalhamos com a mesma paixão com que começamos até o dia 31 de dezembro de 2006, se assim o presidente entender e se assim eu entender também que será. Agora, eu acho que existe um patamar de conquista do primeiro governo dele que, da mesma forma como foi capaz de conciliar o equilíbrio econômico com a questão social, terá de ser capaz de conciliar o crescimento econômico e a questão ambiental.

FOLHA - Quando a sra. diz "se assim eu entender também", há uma sugestão de que o desconforto do debate inviabiliza sua permanência?
MARINA - Eu ainda não conversei com ele [Lula] sobre isso. Como ministra e responsável pelo setor ambiental, minha obrigação é fazer com que essa discussão fique do tamanho que ela deve ser: o meio ambiente não é o vilão do desenvolvimento. Os países em desenvolvimento têm cerca de 50% de seu PIB a partir da sua biodiversidade. Quem, em sã consciência, quer sacrificar 50% de seu PIB?

FOLHA - É fácil dialogar com a ministra Dilma Rousseff [Casa Civil]?
MARINA - A ministra Dilma é uma pessoa muito competente, muito segura do ponto de vista dela. E eu, ainda que não tenha a competência que ela tem, também sou muito segura dos meus pontos de vista.

FOLHA - E eles são convergentes?
MARINA - Olha, quando se é governo, dois lados não podem se colocar em oposição. A ministra Dilma quer o desenvolvimento, mas tenho certeza de que também quer a proteção dos recursos naturais. A ministra Marina quer a proteção dos recursos naturais, mas também quer o crescimento econômico. Só que o meu crescimento econômico eu adjetivo, ele tem de ser sustentável, se não for sustentável não é desenvolvimento, é a repetição das catástrofes que estamos vendo e combatendo, é estar na contramão da história.

Salários de toga

IstoÉ-03/12/2006

Depois de enfrentarem a presidente do STF
e não reduzirem seus salários, qual será o
próximo passo? O país começa a assistir
a uma guerra fratricida no Judiciário

Por Rudolfo Lago e Hugo Marques

Quando se trata do próprio bolso até mesmo os discretos togados que habitam os tribunais do País não vacilam em tornar públicas suas divergências. Revelam, assim, que o Judiciário, ao contrário do que vem ocorrendo a duras penas no Executivo e no Legislativo, resiste fortemente em cortar na própria carne. Na quarta-feira 29, os presidentes dos tribunais de Justiça de cada Estado receberam da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Ellen Gracie, uma lista incômoda. Era a relação dos funcionários do Judiciário com salários acima do teto constitucional de R$ 22,1 mil. Além da lista, os desembargadores receberam da magistrada uma dura recomendação: os supersalários tinham de ser cortados já este mês. O que Ellen não esperava, porém, foi a reação dos desembargadores. Os responsáveis por zelar pelo respeito às leis e à Constituição disseram à presidente do STF que não a obedeceriam, pelo menos de imediato. Prometeram rever a relação, refazer os cálculos e analisar caso a caso as situações, certos de que poderiam justificar determinadas situações. “Isso é uma afronta à ordem estabelecida e à Constituição”, reagiu o secretário da reforma do Judiciário, Pierpaolo Bottini. De acordo com ele, a única coisa que caberia aos presidentes dos tribunais era cumprir o mais rápido possível a determinação que receberam de Ellen Gracie. O teto salarial é previsto pela Constituição, e não há nada que justifique que alguém receba além dele.

Os servidores do Judiciário já são privilegiados se comparados aos funcionários dos outros dois Poderes. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem um salário mensal de R$ 8,8 mil e os deputados e senadores recebem R$ 12,8 mil, um ministro do Supremo Tribunal Federal recebe R$ 24,5 mil, e o teto nos Tribunais de Justiça chega a R$ 22,1 mil. É verdade que tanto Lula quanto os parlamentares recebem benefícios indiretos. Mas isso também acontece com juízes e desembargadores. Além dos seus salários, eles têm remuneração extra por tempo de serviço e benefícios de planos fechados de previdência. Mais indenizações de vários tipos: auxílio-transporte, ajuda de custo em caso de mudança, auxílio-moradia, diárias de viagens, auxílio-funeral, entre outras. Recebem ainda auxílio para pagar colégio para seus filhos, planos médicos e bolsas de estudo para aprimoramento profissional. Há ainda gratificações, por exemplo, por exercício de função eleitoral ou de magistério. O que descobriu o CNJ em seu levantamento é que, a despeito de tudo isso, existem 2.978 servidores do Judiciário que recebem salários acima do teto legal.

Desses quase três mil marajás, 1.208 estão em São Paulo, inclusive o maior deles, que recebe mensalmente R$ 34,8 mil. Os supersalários do Judiciário estão concentrados em 19 tribunais estaduais de Justiça e no Tribunal Regional Federal da 5ª Região.

A descoberta dos supersalários abortou uma movimentação no Judiciário e no Ministério Público que tinha por objetivo melhorar ainda mais seus vencimentos. Antes de conhecer a lista, foi cancelada uma reunião que Ellen Gracie teria com os presidentes da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), na qual defenderia a aprovação de projetos que concederiam novos reajustes para os magistrados. A pauta que a presidente do Supremo pretendia defender pessoalmente aumentaria em R$ 134,5 milhões os gastos da União com o Poder Judiciário. Um dos projetos pretendia aumentar em 5% os vencimentos dos ministros do STF. O grande problema é que essa não é uma medida que ficaria circunscrita somente aos 11 integrantes do Supremo. O aumento teria efeito cascata sobre os salários de mais 5,5 mil juízes por todo o País. Além desse reajuste, outro projeto previa o pagamento de um jetom de 12% do salário para cada integrante do CNJ por comparecimento às sessões de discussão. Pretendia ainda que esse pagamento fosse retroativo à criação do conselho, em junho de 2005. A reunião em que esses projetos seriam discutidos acabou não acontecendo e Aldo Rebelo tirou-os da pauta de votação da Câmara.

Enquanto o Congresso adiava, assim, o aumento para os juízes, o presidente Lula fez o mesmo para parte dos procuradores do Ministério Público. Lula vetou o projeto que concedia um aumento de 12% para os 14 integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público. O que os procuradores pretendiam era algo semelhante à proposta que Ellen Gracie defenderia para o CNJ: o pagamento de um jetom por comparecimento às sessões. Os procuradores, que têm um teto salarial de R$ 23,3 mil, passariam assim a ganhar R$ 28,9 mil. Ultrapassariam, então, os vencimentos dos ministros do STF que, diante da situação, provavelmente buscariam equiparação. Como, de fato, fizeram ao propor o mesmo mecanismo de jetom para os 15 integrantes do seu conselho.

Estima-se que a morosidade da Justiça brasileira gera um prejuízo da ordem de R$ 10 bilhões. Mais da metade das obras de infra-estrutura planejadas, por exemplo, está parada à espera de decisões judiciais sobre demandas que vão de problemas ambientais a questões contratuais. E, a despeito disso, a Justiça brasileira trabalha apenas 180 dias por ano. Com dois recessos, tem 70 dias de férias. E mais 30 outros feriados ao longo do ano. Para Bottini, já é hora de a Justiça refletir sobre isso. “Falta ao Judiciário criar uma cultura de estatística, que mostre uma dimensão do quadro salarial e do número de ações pendentes de julgamento”, defende o secretário da reforma do Judiciário.

sábado, dezembro 02, 2006

Normalidad reina en Caracas a pocas horas de las elecciones

Caracas, 2 de Dezembro de 2006.
Foto: Abraxas Iribarren, ABN.


Cuando faltan pocas horas para las elecciones presidenciales venezolanas, las calles de la ciudad capital muestran a los habitantes realizando las acostumbradas compras sabatinas y a los comercios prestos para la actividad.

Así se pudo constatar en un recorrido que incluyó las avenidas Universidad, Fuerzas Armadas, Urdaneta, San Agustín y Bolívar, además del sector La Hoyada.

En los referidos lugares se pudo observar que las tiendas, panaderías, farmacias de turno y jugueterías se encuentran abiertas en su mayoría y su personal presto a recibir a los compradores.

Igualmente, una cantidad importante de personas en La Hoyada se dedica a las compras navideñas y adquiere, entre otras cosas, juguetes, ropa, zapatos y nacimientos. Otros grupos, simplemente, desayunaban en familia.

Los caraqueños consultados afirmaron que aprovecharon este sábado para realizar algunas compras, porque este domingo -bien temprano- se trasladarán a sus centros de votación para sufragar.

Isabel Cárdenas, quien transitaba por La Hoyada, dijo que percibe un clima de alegría. Por ello, aprovechó para salir a comprar juguetes para sus hijos y sobrinos.

En el centro de la ciudad también se pudo constar la presencia de funcionarios de distintos cuerpos de seguridad, un volumen importante de vehículos particulares y de transporte público, además del funcionamiento normal del Metro de Caracas.

da Agencia Bolivariana de Noticias

São Paulo pagou R$ 456 milhões a 45 doadores de Alckmin

Juntas, 45 colaboradoras da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência são destinatárias de R$ 456,1 milhões dos cofres do Palácio dos Bandeirantes apenas neste ano. Cruzamento entre a prestação de contas do PSDB e a lista de fornecedores do Estado de São Paulo revela que pelo menos 45 doadoras estão entre os credores do governo estadual, comandado por Alckmin até março deste ano.

Somados ao contrato para o trecho Sul do Rodoanel, o total previsto para essas empresas superaria R$ 2 bilhões.

Essas empresas --entre elas empreiteiras, bancos e fornecedoras de equipamentos de segurança-- contribuíram com R$ 14.478.968, correspondendo a 23% dos R$ 62 milhões arrecadados pelo comitê financeiro da campanha.

Além desses R$ 456,1 milhões já liquidados (cujo pagamento já foi autorizado) pelo governo, há ainda R$ 1,546 bilhão em contratos para a construção do trecho Sul do Rodoanel. Encarregadas da obra, as construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, OAS, Mendes Júnior e Engevix estão entre os principais doadores da campanha.

A Andrade Gutierrez, por exemplo, contribuiu com R$ 1,5 milhão para a campanha de Alckmin. Neste ano, a empreiteira receberá R$ 15 milhões do Estado, segundo o orçamento registrado no Sigeo (sistema de acompanhamento dos gastos do Estado). O contrato do Rodoanel prevê R$ 492,9 milhões para a empreiteira.

O rol inclui da prestação de serviços bancários a quatro empresas especializadas em segurança. Fornecedora de peças em couro, a Fujiwara Equipamentos de Proteção Individual, por exemplo, é beneficiária de R$ 1,173 milhão em contratos com o governo do Estado. A empresa, com sede no Paraná, forneceu 35.900 pares de botas de cano curto para a Secretaria de Segurança Pública. Destinou R$ 300 mil à campanha tucana. Outra fornecedora de equipamentos de segurança, o grupo Bertin doou R$ 500 mil.

Realizado pela liderança do PT na Assembléia Legislativa a pedido da Folha, o levantamento se limita aos gastos previstos com a administração direta, excluindo as empresas sob o controle do Estado.

Registrados os gastos dessas empresas --de 2001 para cá-- a lista de fornecedores que integram a relação de doadores seria maior, somando outro R$ 1,5 bilhão liberado.

Entre as empresas que contribuíram para a campanha, a Sadia venceu licitação para fornecer tiras empanadas e congeladas de carne de frango para merenda. Destinou à campanha R$ 500 mil.

Doadora de R$ 850 mil, a Companhia Brasileira de Petróleo Ipiranga foi contratada para fornecer combustíveis. A empresa possui contratos que somam R$ 22,5 milhões com o governo paulista.

O maior colaborador da campanha, com R$ 3,5 milhões, o banco Itaú recebeu R$ 7,2 milhões pelos serviços de arrecadação de tributos. Nesse total não estão contabilizadas as despesas com serviços prestados pelas outras empresas do grupo. Também encarregado por arrecadação e por seguro de imóveis, que somam R$ 2 milhões, o grupo Unibanco contribuiu com R$ 1,3 milhão. Doador de R$ 1,5 milhão, o Banco Real recebeu R$ 1 milhão por arrecadação e ainda por realizar trabalhos de restauração do patrimônio público em parceria com o Estado.

In: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u87335.shtml

Exma Sra Juíza Ellie Gracie.

Presidente do Supremo Tribunal Federal Consternado e entristecido ouvi ontem, em cadeia Nacional, a melancólica e triste entrevista de Vª Excelência tentando justificar direitos salariais e jetons para si e seus pares.

Tenha certeza Sra Gracie, permita-me assim chamá-la, eu e milhões de Brasileiros fomos dormir, ontem, mais tristes, mais desesperançados e muito, muito mais melancólicos com os destinos de nossa pobre e explorada Nação.

Confesso de coração aberto e com alma de cidadão, que fiquei feliz e emocionado quando a Sra foi escolhida para presidir a mais alta corte da Justiça Brasileira. Em boa e alvissareira hora, substituindo seu antecessor de triste memória e questionável desempenho ético.

Li, nas páginas de uma revista semanal, o belíssimo artigo de sua conterrânea Gaúcha, a admirável e amada LYA LUFT, discorrendo sobre a escolha pelo voto para Governadora de seus estados, três MULHERES. Em seu lúcido artigo, transparecia a esperança depositada nestas mulheres, mães, esposas - reserva moral da família - e talvez a redenção da Pátria.

Decorridos apenas alguns dias, deparo-me com a sua entrevista no citado tele-jornal. Charmosa nos seus anos maduros, simpática e com postura de autoridade, como sempre elegante, com o domínio completo de suas atribuições. Mas, Sra Presidente, que desilusão, que desgosto, que inversão de valores a Senhora nos passou com a defesa intransigente sobre o aumento de seus próprios salários e de uma novíssima modalidade de reforçar seus já generosos contra-cheques - JETONS, JETONS - pagamentos específicos para Vªs Excelências, por reuniões em hora de expediente e com finalidades não devidamente esclarecidas. E mais, retroativos a JULHO de 2005, com os devidos ressarcimentos. E ainda, Sra Presidente, totalmente isentos de Imposto de Renda, esta coisa comezinha e degenerada que só a ralé deve descontar religiosa e mensalmente para que Vªs Excelências tenham seu contra-cheques, mordomias mil e JETONS inexplicáveis garantidos.

Penso que Juízes e assemelhados devam ser bem remunerados. Penso que um magistrado no sagrado dever de suas atribuições, não pode e não deve ficar preocupado com suas contas, suas faturas, e a condução administrativa de seus familiares e as despesas do dia-a-dia. Suas funções e suas atribuições são nobres, belas e importantes demais, para que Vªs Senhorias se desviem, durante seu "expediente" para tratar de assuntos tão corriqueiros.

Mas entre salários - sim, salários - porque Vªs Senhorias são funcionários, e, portanto, são assalariados, assim como eu e milhões de brasileiros, e salários milionários, vai uma grande diferença. No momento em que se discute se o salário mínimo aumentará R$ 17,00 ou R$ 25,00, o Judiciário Brasileiro, o mais bem remunerado do Planeta, pleiteia descarada, abusiva e acintosamente um novo e fabuloso aumento.

O legado iluminista de MONTESQIEU, na sua mais bela obra "O Espírito das Leis-1748", modificou para sempre a História dos povos e das Nações modernas e socialmente justas, prevendo a separação dos poderes, como forma mais adequada de Governo.

No entanto, esses conceitos, que para outras Nações privilegiadas foi uma benção e uma maneira eficaz e correta de governar os povos, para o nosso infeliz Brasil, é uma praga descontrolada. Ninguém controla nada, ninguém processa ninguém, e todos se locupletam.

A Bielo-Rússia é ex-colônia da falecida URSS. Continua um estado totalitário, ineficaz e corrupto. Não tem grandes indústrias, seu comércio é pífio e suas riquezas naturais, modestas. Nem de longe comparar com o fantástico e imenso território Brasileiro, com suas incríveis reservas naturais. Nossa indústria é pujante e moderna, nosso povo é ordeiro e laborioso. Assim mesmo Exma Sra Juíza, aquele pequeno e infeliz País da Europa Oriental teve seu IDH superior ao do Brasil. Por quê? Por que será que caminhamos céleres e firmes para o ralo da História? Não lhe ocorre nada?

O que pensam Vªs Excelências, como estipulam seus estipêndios? De onde acham que saem os recursos que sustentam sua paralisada máquina? Afinal, para que tanta ganância? Porque um juiz da triste Nação Brasileira necessita ser milionário, quando a imensa maioria do povo humilde é miserável e passa fome, não tem saúde, não tem educação, não tem assistência JURÍDICA e não tem esperança?

Acaso tiveram em sua bela e generosa existência Vª Senhoria e seus pares a oportunidade de privar com o simples cidadão? O empregado da Indústria, o trabalhador rural, o peão de obra, a doméstica que levanta às 05h00 para chegar a tempo no seu modesto emprego e receber um salário vil e famigerado? Tenho certeza que não. Vossas Senhorias, todas, não sabem mais dos valores e das misérias da existência humana. A alegria e tragédia de um povo humilde, trabalhador, honrado, digno. Vªs Senhorias todos se perderam nos descaminhos viciados do imenso e fantástico poder que desfrutam e usam até o limite da tolerância da sociedade.

Que espécie de Nação pensam estar legando para a posteridade? O que Vªs Senhorias pensam do futuro de nossos filhos e netos? Até onde aguentará a paciência generosa do povo Brasileiro? Até quando?

Exma Sra Presidente Ellie Gracie, sou um simples cidadão, um pai de família, um funcionário público aposentado. Ainda assim trabalho para reforçar minha renda. Porque preciso, porque sei, porque gosto. Convivo diariamente com Homens, Homens com HHH maiúsculo. Peões de obra, assalariados, miseráveis, gente simples, modesta, inculta, pobre e desdentada - com suas roupas sujas, remendadas, com o cheiro inerente aos homens da labuta, o cheiro do suor, do trabalho. O cheiro inconfundível do progresso, da honra, da dignidade humana. O cheiro que certamente para as finas narinas de Vªs Senhorias seria intragável, para mim, que os conheço e respeito, é o cheiro da esperança de um futuro melhor, de uma nação mais próspera, de uma sociedade mais justa e igualitária.

Solicito respeitosamente a Vª Excelência, ou melhor, imploro Sra Presidente, como Brasileiro e cidadão, imploro humildemente do meu modesto e simples lugar: não destrua mais uma vez a esperança de milhões de compatriotas, não compactue com a ganância sem fim de seus pares, não sangrem mais a nação extenuada e prostrada até a última gota.

Deposito no Judiciário Brasileiro a última esperança, o derradeiro lamento, o último grito de socorro. Todos os demais poderes, corrompidos, conspurcados, indiferentes à sorte da Nação - deles, nada mais espero - senão vergonha, dor, tristeza e desesperança.

Respeitosamente Gerson Marquardt - Cidadão, pai, avô.
Brasileiro.

23 Novembro 2006

"Boicotem! Boicotem! Boicotem os jornais burgueses!"

lustração de Alex Falco - Diario de La Juventud Cubana
Esta frase é de Gramsci, em texto de 1916!
Texto de atualidade impressionante. Segue abaixo:

Os Jornais e os Operários

Antonio Gramsci, 1916.

É a época da publicidade para as assinaturas. Os diretores e os administradores dos jornais burgueses arrumam as suas vitrines, passam uma mão de tinta pela tabuleta e chamam a atenção do passante (isto é, do leitor) para a sua mercadoria. A mercadoria é aquela folha de quatro ou seis páginas que todas as manhãs ou todas as tardes vai injetar no espírito do leitor os modos de sentir e de julgar os fatos da atualidade política que mais convém aos produtores e vendedores de papel impresso. Estamos dispostos a discorrer, com os operários especialmente, sobre a importância e a gravidade daquele ato aparentemente tão inocente que consiste em escolher o jornal que se pretende assinar?
É uma escolha cheia de insídias e de perigos que deveria ser feita com consciência, com critério e depois de amadurecida reflexão. Antes de mais, o operário deve negar decididamente qualquer solidariedade com o jornal burguês. Deveria recorda-se sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por idéias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma idéia: servir a classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. E, de fato, da primeira à última linha, o jornal burguês sente e revela esta preocupação.
Mas o pior reside nisto: em vez de pedir dinheiro à classe burguesa para o subvencionar a obra de defesa exposta em seu favor, o jornal burguês consegue fazer-se pagar pela própria classe trabalhadora que ele combate sempre. E a classe trabalhadora paga, pontualmente, generosamente. Centenas de milhares de operários contribuem regularmente todos os dias com seu dinheiro para o jornal burguês, aumentando a sua potência. Porquê? Se perguntarem ao primeiro operário que encontrarem no elétrico ou na rua, com a folha burguesa desdobrada à sua frente, ouvirão esta resposta: É porque tenho necessidade de saber o que há de novo. E não lhe passa sequer pela cabeça que as notícias e os ingredientes com as quais são cozinhadas podem ser expostos com uma arte que dirija o seu pensamento e influa no seu espírito em determinado sentido. E, no entanto, ele sabe que tal jornal é conservador, que outro é interesseiro, que o terceiro, o quarto e quinto estão ligados a grupos políticos que têm interesses diametralmente opostos aos seus. Todos os dias, pois, sucede a este mesmo operário a possibilidade de poder constatar pessoalmente que os jornais burgueses apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária. Rebenta uma greve? Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação?
Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores.O governo aprova uma lei? É sempre boa, útil e justa, mesmo se não é verdade. Desenvolve-se uma campanha eleitoral, política ou administrativa? Os candidatos e os programas melhores são sempre os dos partidos burgueses. E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador. Apesar disto, a aquiescência culposa do operário em relação ao jornal burguês é sem limites. É preciso reagir contra ela e despertar o operário para a exata avaliação da realidade. É preciso dizer e repetir que a moeda atirada distraidamente para a mão do ardina é um projétil oferecido ao jornal burguês que o lançará depois, no momento oportuno, contra a massa operária.
Se os operários se persuadirem desta elementaríssima verdade, aprenderiam a boicotar a imprensa burguesa, em bloco e com a mesma disciplina com que a burguesia boicota os jornais dos operários, isto é, a imprensa socialista.
Não contribuam com o dinheiro para a imprensa burguesa que vos é adversária: eis qual deve ser o nosso grito de guerra neste momento, caracterizado pelacampanha de assinaturas, feitas por todos os jornais burgueses. Boicotem, boicotem, boicotem!
Fonte: Os Jornais e os Operários [Antonio Gramsci, 1916, em http://www.marxists.org/portugues/gramsci/1916/osjornaiseosoperarios.htm]


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