Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, agosto 07, 2007

A história instável dos acordos de armas americanos




















Deu no Der Spiegel:

A história instável dos acordos de armas americanos

Os EUA causaram inquietação em seus aliados europeus com os planos de um maciço acordo de armas com vários governos do Oriente Médio. Washington já percorreu essa estrada antes.


Siegesmund von Ilsemann

Karsten Voigt, o coordenador do governo alemão para Cooperação Germano-Americana, estava totalmente irritado na semana passada. Como Washington pode promover as reformas democráticas no Oriente Médio vendendo bilhões de dólares em armas à Arábia Saudita é "um grande ponto de interrogação", ele disse. O reino islâmico pode ser nominalmente um aliado americano, mas não é "especialmente democrático", disse Voigt, e seu regime familiar opressivo continua sendo um terreno fértil para os terroristas islâmicos.

Em uma reunião de cúpula no final de julho, autoridades graduadas americanas anunciaram um acordo para enviar importantes sistemas de armas modernas para a Arábia Saudita, Egito, Israel e outros governos do Oriente Médio, para contrabalançar a crescente influência do Irã na região.

Voigt se perguntou se a medida é sábia. "A região não sofre de falta de armas, e sim de falta de estabilidade", ele disse. "Tenho sérias dúvidas se a estabilidade pode ser alcançada com essas armas".

Mas os acordos de armamentos têm uma longa tradição em Washington. "O inimigo do meu inimigo é meu amigo" foi uma máxima de vários governos americanos durante a Guerra Fria. A política externa de Washington muitas vezes aprovou a venda de armas para regimes questionáveis que prometiam ajudar a conter a ameaça comunista, quaisquer que fossem as potenciais conseqüências.

Os acordos freqüentemente terminaram em fracasso: os soldados americanos muitas vezes foram atacados por armas que seu próprio governo vendeu para os exércitos dos países que eram seus supostos aliados.

A conturbada relação EUA-Irã é um exemplo típico dessas políticas. Depois que o xá do Irã consolidou seu poder com a ajuda da CIA em 1953, no que foi conhecido como Operação Ajax, o país tornou-se o mais importante aliado dos EUA no Oriente Médio, depois de Israel. Em troca do acesso aos abundantes poços de petróleo do Irã, Washington vendeu ao xá um arsenal de armas modernas. Com caças a jato de última geração, novos foguetes e tanques poderosos, o Irã tornou-se uma potência militar no golfo Pérsico. Cerca de 40 mil assessores militares americanos ensinaram os iranianos a usar essas armas.

Depois que o regime fundamentalista islâmico liderado pelo aiatolá Khomeini derrubou o xá em 1979 e provocou uma crise ao fazer 52 reféns americanos, ficou dolorosamente claro para Washington que suas armas estavam nas mãos erradas. E assim o governo americano rapidamente recorreu ao maior inimigo dos fundamentalistas religiosos, o ditador iraquiano Saddam Hussein.

Durante oito anos - até 1988 - Hussein travou uma guerra brutal com seus vizinhos a leste, apoiado por armas e know-how de fontes americanas. Até Donald Rumsfeld, que mais tarde planejaria a atual guerra no Iraque como secretário da Defesa do presidente George W. Bush, visitou Hussein em 1983.

Como incentivo extra, os americanos ofereceram a Bagdá fotografias aéreas secretas que permitiram aos generais de Hussein infligir grande dano às forças iranianas - às vezes usando armas químicas. Apenas alguns anos depois, é claro, os soldados americanos travariam uma guerra com os próprios militares iraquianos que Washington ajudou a formar meticulosamente.

Guerras na Ásia e outros lugares
Os EUA também forneceram aos combatentes da liberdade do Afeganistão dinheiro e armas para lutarem contra as tropas soviéticas ocupantes nos anos 1980. Um dos melhores clientes do apoio da CIA na época foi o milionário saudita Osama bin Laden. Duas décadas depois, comandos americanos estão caçando o mais famoso terrorista do mundo e seus defensores taleban. Aviões militares e civis que sobrevoam o Afeganistão ainda são obrigados a fazer manobras evasivas para evitar os mísseis Stinger disparados contra eles, que foram originalmente fornecidos pelos EUA para combater os comunistas.

Washington protegeu e apoiou o ditador panamenho general Manuel Noriega durante anos. Apesar de todo o dinheiro e das armas dos EUA, ele também estava envolvido no tráfico de drogas. Isso levou o pai do atual presidente, George Bush, a depor o homem-forte, enviando tropas ao país centro-americano na Operação Justa Causa. Noriega foi mandado para a cadeia em Miami.

Os americanos também tiveram pouca sorte com sua estratégia nas Filipinas. Quando Ferdinand Marcos chegou ao poder em Manila, em 1965, parecia que os dois lados se beneficiariam disso. O novo presidente mandou tropas filipinas ajudarem na debilitada iniciativa de guerra americana no Vietnã. Em troca, os EUA apoiaram o regime de Manila política e militarmente - embora estivesse claro que os homens de Marcos estavam usando armas americanas para oprimir a oposição do país. A instabilidade que continua afetando as Filipinas hoje faz parte desse legado.

A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, defendeu a última série de acordos de armas durante sua recente visita diplomática ao Oriente Médio. "Estamos decididos a manter os equilíbrios - militar e estratégico - na região", ela disse.

Mas as armas americanas costumam sobreviver às mudanças de metas da política externa americana.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves - para o Uol Mídia Global

quarta-feira, maio 09, 2007

Mentiras “cinematográficas” dos EUA




















Ilustração via civillibertarian.blogspot.com


Artigo da edição nº 55 do jornal Oriente Médio Vivo:

Mentiras "cinematográficas" dos EUA

Foi desmascarada recentemente uma nova mentira do governo de George W. Bush, direcionada ao seu próprio povo e testando a ingenuidade dos eleitores estadunidenses: os dois mais celebrados “heróis da guerra contra o terrorismo” se tornaram, subitamente, simples vítimas das desastrosas invasões pelos interesses de seus governantes.


As duas propagandas mentirosas estadunidenses retornaram para assombrar o Pentágono, responsável pelas invenções sobre os soldados Pat Tillman e Jessica Lynch. O primeiro, um jogador profissional de futebol americano que abandonou o esporte para lutar no Afeganistão, supostamente morto por uma emboscada do Talibã em 2004. O segundo, o soldado feminino Lynch, que tinha apenas 19 anos na época em que foi supostamente capturada pelos “rebeldes” no Iraque e libertada pelas forças estadunidenses após uma “heróica operação”. Os dois “contos”, recentemente desmascarados, marcam o uso da propaganda militar estadunidense como ferramenta para manipular a opinião pública do país, em constante queda após os fracassos no Afeganistão e no Iraque.

Ambas as histórias se encontraram na recente reunião do Comitê de Reforma do Governo dos Estados Unidos, liderada pelo parlamentar estadunidense Henry Waxman. Detalhes foram esclarecidos sobre os casos, e o exército estadunidense foi oficialmente acusado de “falsear incidentes”. As histórias são tão fictícias quanto algumas narrativas hollywoodianas, planejadas para transformar situações de derrotas estadunidenses em atos de heroísmo para justificar a permanência das tropas no Afeganistão e no Iraque. Ironicamente, a estratégia do Pentágono funcionou no início, mas não por muito tempo.

Pat Tillman era zagueiro do time Arizona Cardinals. Em 2001, aos 25 anos, logo após o 11 de Setembro, abdicou do salário de meio milhão de dólares para lutar no Afeganistão. Em abril de 2004, Pat foi morto com três tiros na cabeça. O Pentágono aproveitou a situação para dar um lustre patriótico ao acontecimento, criando o primeiro “mártir” estadunidense na “guerra contra o terrorismo”. Na versão do Pentágono, sob ordens do demitido Donald Rumsfeld, Tillman havia sido vítima de uma emboscada de milicianos afegãos.

Anunciado como herói, o soldado foi condecorado com uma estrela de prata, a terceira maior honra do exército estadunidense. Tillman logo virou nome de uma praça, uma ponte e uma estrada nos Estados Unidos. Apesar disso, meses depois, investigações concluíram que ele, na verdade, havia sido morto por 'fogo amigo', numa briga entre soldados estadunidenses. O primeiro herói se foi.

As primeiras notícias sobre Jessica Lynch a apresentaram como uma heroína salva pelas forças estadunidenses no Iraque. Supostamente, ela havia sido baleada e esfaqueada por “rebeldes iraquianos”, mas continuou atirando até toda a sua munição chegar ao fim. Ela então teria sido capturada pelos “rebeldes” perto da cidade de Nassíria, no sul do país e, uma semana depois, após uma “heróica operação”, teria sido resgatada em um hospital local. De volta aos Estados Unidos, foi condecorada pelo exército. Virou heroína por “ter sido gravemente ferida em combate e ter resistido como prisioneira deguerra”. Não demorou muito até que a mentira fosse desmascarada. Os médicos que cuidaram de Jessica logo após o resgate relataram que seus ferimentos não eram de armas de fogo, e muito menos de uma arma branca. Com isso, em pouco tempo ficou provado que ela não havia participado de nenhum combate, se ferindo apenas levemente em uma emboscada.


Os soldados inimigos, ou “rebeldes iraquianos”, como descritos pelo Pentágono, a levaram para um hospital local, em que Jessica recebeu cuidados de médicos iraquianos, que a devolveram para as forças estadunidenses. Assim, outro herói estadunidense também se foi.


“Recebi ordens para não contar nada, senão seria punido”, disse o soldado Bryan O'Neal, que participou da briga que matou Pat Tillman. “Até hoje eu não entendo por que eles mentiram”, afirmou Jessica Lynch na recente reunião organizada por Henry Waxman. As planejadas mentiras do Pentágono inspiraram milhares de cidadãos estadunidenses, mas existia apenas um pequeno problema: tudo não passou de mais uma ficção.